Atual recordista mundial master dos 10.000m na categoria 80 anos, a carismática dona Tomico correrá a sua 12ª São Silvestre no próximo dia 31 de dezembro. Na prova, a atual campeã tem meta mais modesta: quer apenas completar no tempo que lhe dê o direito da medalha de participação.
“Eu quero terminar a corrida em 2h20. Tenho que terminar antes das 2h30, porque senão não pego certificado de participação e medalha. Eu sou uma colecionadora de medalhas”, diz a descendente de japoneses natural de Ibitinga, cidade famosa pela fabricação de malhas no interior de São Paulo.
De fato, Tomico é uma colecionadora de medalhas. Ao todo, são mais de 500, todas guardadas em sua casa. Apenas no Mundial masters, ocorrido na Itália em setembro deste ano, foram cinco: além da vitória nos 10.000m, a brasileira também levou o ouro nos 800m, ficando com a prata nos 5.000m e 1.500m e com o bronze nos 8 km cross country, todos na categoria 80 anos.
A carreira tão vitoriosa teve um início curioso e tardio. Apenas aos 67 anos Tomico resolveu correr. A primeira prova não foi nas ruas ou nas pistas, mas sim com seus familiares. “Há 14 anos fizemos uma competição na casa dos meus filhos, e lá corremos 100m, e eu ganhei”, conta. “Depois disso, gostei e comecei a competir. Eu adoro competir”.
No começo de sua carreira, a atleta começava a correr cedo, logo às quatro da manhã. Mas atualmente, Tomico conta que não pratica tanto assim. “Agora, começo a treinar às sete, vou devagar. Corro dois ou três quilômetros por dia. Antes eu treinava bem mais. Mesmo assim eu ainda participo pelo menos de uma corrida por vez”, lembra a corredora que se exercita no Parque da Mooca, zona leste da cidade de São Paulo.
Para ela, que não tem técnico e corre sozinha, mais do que um prazer, as corridas são uma forma de manter a saúde. “Antes eu tinha diabetes. Quando fui ao médico, ele não me deu remédio, falou que, como eu corria, já estava bom. É claro, precisa ter um cuidado com a alimentação, não como carne nem doces, como muita salada. Tem que cuidar da saúde”.
A história da atleta em corridas é longa. Há dez anos, corre Mundiais masters. Com apenas três anos praticando, já se inscreveu na São Silvestre, completando a prova logo na primeira vez. “Quando eu comecei, tinha pensado que descer a Consolação já estaria bom. Mas pode ir andando também, né? Então fui andando uma parte e cheguei no final”, relembra a mãe de três filhos, avó de três netos e também bisavó.
Com tanta experiência, Tomico já conhece todas as artimanhas e problemas da prova. Para a senhora de 81 anos, a chuva é o maior problema. “Ano passado deu aquela chuva do quinto ao décimo quilômetro, fiquei com a camiseta toda molhada. Aí fica difícil, pois a gente não consegue enxergar os buracos na rua”, conta a veterana de São Silvestre, que tem como melhor tempo a marca de 1h56.
A recordista mundial conta que sempre tem a ajuda dos outros competidores, que a incentivam. “Eles vão me chamando, às vezes eu mesma vou na frente deles e eles vão seguindo meu ritmo”, revela, sempre com um largo sorriso aberto no rosto.
E é exatamente com este sorriso que Tomico pretende enfrentar os 15km de subidas e descidas do centro de São Paulo no dia 31 de dezembro. Sempre com a mesma simpatia e certeza de que, para ela, o esporte é muito mais do que um simples exercício, é uma forma de diversão. “Quando a turma vai junto, está bom. Eu gosto de correr, de ir conversando com todo mundo, é legal”, finaliza, sem antes mostrar seus pequenos bibelôs e chaveirinhos típicos japoneses, que ela mesmo produz para presentear seus netos.